Ideias de Dane Rudyar sobre o Ciclo de Lunação
Por Juliana Estevez
Quando falamos do ciclo de lunação, ou de qualquer outro ciclo de relacionamento, sempre admitimos, como base, a existência da terra. As sucessivas conjunções e oposições dos dois corpos celestes só existem em relação com o centro da terra (isto é, enquanto lidamos com o tipo tradicional de astrologia, que é geocêntrico). (...) o dualismo do ciclo sol-lunar é, na realidade, produzido por um relacionamento tríplice: sol-lua-terra. No ciclo de lunação, o factor básico não é nem o ardente e ofuscante sol liberador da semente, nem a fria e objectiva lua, que estrutura o conceito e desenvolve o corpo; é, na realidade, a terra, cujas necessidades exigem a cíclica acção recíproca das actividades solares e lunares.(...)
(...) Concluindo, (...)ciclo de lunação é o ciclo das fases da lua. Estas fases são os aspectos diferentes que a lua apresenta periodicamente ao homem que está na terra. Não representam mudanças na própria lua, mas, sim, mudanças no relacionamento angular da lua com o sol, tendo como referencia o centro da terra.”
“Esses factos astronómicos são interpretados pelo astrólogo como símbolos do processo de evolução universal (ou manifestação da vida), no qual três factores são fundamentais. A terra representa a necessidade dos materiais dispersados e desintegrados que são encontrados no próprio fim de todo e qualquer ciclo. Essa necessidade de integração renovada exige um derramamento criativo do espírito divino, simbolizado pelo sol. A força solar, contudo, só pode ser usada e assimilada pelos caóticos elementos terrenos se é libertada gradualmente, durante um processo de desenvolvimento orgânico e de iluminação conceptual reveladora, da qual o crescente da lua é símbolo. O período minguante da lua representa a disseminação daquilo que alcançou a integração lunar na lua cheia.”
“Por isso, a lua é um meio para chegar a um fim. Ela é mediadora, mãe ou Musa, cuja função consiste em atender às necessidades das unidades em evolução que constituem, colectivamente, a substância do ciclo. Ela distribui o potencial solar (isto é, o elemento e a energia espiritual), através de actividades orgânicas e psicológicas que estrutura para suprir as necessidades das unidades materiais em evolução, sejam elas células ou personalidades. Ela é, portanto, serva da terra e também do sol. Libera a luz do sol e, assim fazendo satisfaz à necessidade de vida orgânica e psíquica das criaturas da terra.”
“Se uma atitude positiva de crescimento e de liberação dos remanescentes do passado predominou durante a maior parte do período crescente, a lua cheia traz para os organismos terrenos (no nível físico ou psico-mental) algum tipo de realização, iluminação ou revelação. A nova imagem solar – é recebida na forma de uma percepção clara e objectiva. Ela assume um estado de coisa concreta, isto é, que pode ser plenamente percebida ou entendida, conforme for o caso. Este estado implica algum tipo de contraste – um dualismo branco-e-preto, sombra-e-luz, sem o qual nenhuma percepção objectiva da forma é possível para o homem. Na prática, isto significa que é dado um valor mais elevado a algum factor novo e que, em consequência, um valor antigo é repudiado ou então é colocado sob uma nova luz, em contraste com a nova compreensão, isto, por sua vez, poderá produzir uma reorientação definida das actividades cotidianas ou uma nova afirmação de propósito – o “propósito” de um homem como o resultado da natureza e da qualidade da sua reacção ( positiva ou negativa) às imagens liberadas dentro dele pelo espírito ou o “sol”.
Mas se o individuo enfrentou o período crescente da lunação ( e especialmente a fase do primeiro quarto) com uma atitude hesitante ou inteiramente negativa, pode-se esperar a possibilidade de que a lua cheia produza um conflito orgânico sério e talvez totalmente destrutivo, ou um dilema mental para o qual parece não ser possível encontrar uma solução integradora. As forças solar e lunar cristalizam-se, por assim dizer, em duas ordens ou modos de vida opostos. Isto leva a um entrechoque na mente e muito provavelmente também no corpo. A personalidade é dividida pelas forças que puxam em direcções opostas e a esquizofrenia – uma divisão da personalidade – poderá ocorrer, pelo menos temporariamente.
Dizer que o sol e a luz representam duas ordens de vida decididamente antagónicas e irreconciliáveis é uma grande ilusão. É a ilusão da separatividade que coloca a mente ( lua) contra o espírito ( sol), o ego ( uma estrutura psíquica cujo propósito evolucionário é desenvolver uma objectiva clareza de percepção através das diferenças individuais) contra o eu espiritual ( uma força de integração que procura a inclusão mais completa possível). Esta ilusão de separação destrói a essência vital do relacionamento, mesmo que as formas exteriores permaneçam como cascas. Ela é a negação da qualidade de relação. E a mente, que é invadida por ela, só é capaz de ver o sol e a lua como dois factores sem qualquer relação, estranhos e eternamente conflituantes – cada um com o seu próprio “ciclo de posições” independente – em vez de participantes unidos num verdadeiro “ciclo de relacionamento”, a lunação.”
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