Neptuno
Descoberta
Neptuno foi descoberto em 1846. Esta fase pós revolução industrial estava recheada de promessas e sonhos promovidos pelos ideais de igualdade, liberdade e fraternidade – slogan das revoluções que ocorreram anos antes. Cada país projectou seus sonhos num destes ideais. Na América, o sonho era o de liberdade e na Europa, alguns sonharam com a fraternidade e outros com a igualdade. No mesmo ano da descoberta de Neptuno, foi publicado o manifesto comunista, manifesto que sonhou com uma sociedade perfeita, una, onde prevalecia a solidariedade e a igualdade absoluta entre todos. Daí, surgiu o comunismo e o socialismo sistemas de governo que influenciaram a humanidade com força total neste período da história.
Obviamente, no mundo, a igualdade de uns ameaçou a liberdade de outros e vice-versa, e uma grande guerra ocorreria no futuro com a absorção de um outro arquétipo no inconsciente colectivo, o de Plutão. Mas deixemos essa parte para o próximo capítulo.
Surgiu também nesta fase neptuniana, o movimento da cruz vermelha, e a humanidade passou a estar mais receptiva ao sofrimento. Na mesma altura, este tema foi muito debatido, e foram criados os direitos humanos, que objectivavam melhorar as condições de vida da humanidade como um todo.
No final deste século, uma figura importantíssima surgiu, Freud, que estudou a hipnose e acabou por criar a psicanálise, dando validação científica para a psicologia, graças aos aprofundados estudos deste médico, que foram continuados por Jung e outros.
Na mesma época os temas ligados ao espiritual surgiram com força total, primeiro com a incorporação das filosofias orientais e os conceitos de reencarnação e karma. Mais tarde, o francês Alan Kardec iria criar o espiritismo Kardecista. Na mesma altura, nos E.U.A., surgiram médiuns e o contacto com mortos se popularizou.
Um dos mais neptunianos momentos da história também se iniciou neste período, com o aparecimento da fotografia e do cinema, e os arquétipos colectivos passaram a ser transmitidos em massas, os ideais masculinos e femininos eram representados pelos actores e a moda também se ampliou maciçamente. Os rádios transmitindo a música que ficou disponível a todos, e a TV transmitindo um mundo fantástico, que passou a ser quase, se não de facto, um vício.
As drogas também passaram a ter uso mais frequente nesta fase, sobretudo os derivados de ópio, e na medicina os anestésicos se popularizaram, graças à maior sensibilização à dor alheia, tema importante da época (Neptuno rege as anestesias).
Glifo:
Neptuno é o único planeta transpessoal que não é composto pela figura base circular. Este planeta é composto por uma meia-lua completamente receptiva ao superior sobre a cruz. Esta simbologia reflecte a intuição () neptuniana de princípios superiores e espirituais materializada na realidade concreta (+). A carência () é de algo que vem de cima, de um plano mais elevado, seja ele espiritual ou simplesmente ilusório. O facto de não existir a figura do circulo revela que não há princípio de individualidade única em Neptuno, ele representa a dissolução no todo, uma colectividade indissoluta, sem indivíduos separados, sem a consciência individual, actua como uma consciência maior, e que o símbolo do circulo não pode representar. Esta consciência é provavelmente o invisível que está acima da meia-lua de Neptuno.
Associação à Alquimia
Na alquimia encontramos Neptuno simbolizando o Solvente Universal, uma espécie de ácido muito forte que se usa no processo de cristalização, dissolvendo a coesão das moléculas que estagnam a obra alquímica, e quando este ácido é usado, seu efeito é irreversível. Geralmente se usa o solvente universal no estagio final, em que os componentes da obra antes de se separarem, se cristalizam, mantendo-se grudados. O solvente faz evaporar as impurezas num gás venenoso que pode causar loucura e morte.
Psicologicamente, o solvente universal ou Neptuno actua na consciência do alquimista, causando uma espécie de desestruturação, as defesas são enfraquecidas, e a realidade interior vai se sobrepondo à casca da personalidade, este é um período confuso, de insegurança e nebulosidade, nada parece ser o que era antes, o alquimista deve entrar num período meditativo, onde através da introspecção, começam a encontrar sentido no caos interior que atravessam. É uma fase em não adianta buscar ajuda nos outros nem em livros, o sentido só vem através do silêncio. Nesta fase muitos enlouquecem, se afogando nas águas interiores, mas outros passam a ter uma percepção completamente diferente de si próprios, da vida e de toda a realidade. Sem se dar conta, o alquimista vai sendo transportado para outra dimensão, e toda a sua estrutura de valores cai, dando lugar a outra. Este é um dos estágios mais avançados da obra e só muito poucos chegam lá, é um estágio irreversível conhecido como o ponto de não retorno. O alquimista não vê mais separação entre ele e a obra, ela está dissolvida nele e ele está dissolvido nela.
Associação à Mitologia
São muitos os mitos de Neptuno. Este planeta representa o próprio processo de mitificação, de construção de arquétipos e está associado ao Caos oceânico primordial, origem e retorno final de toda a vida. Mas também representa na mitologia greco-romana Posseidon, o deus dos mares e oceanos.
Posseidon é um dos filhos de Cronos, que foi devorado e ficou preso nas entranhas do pai. Foi salvo pelo irmão mais novo Zeus e ajudou-o a destronar o pai. Enquanto Zeus tornou-se o grande deus da terra e do céu, Posseidon ficou os mares e Hades, com o reino subterrâneo, o tártaro ou inferno.
Posseidon não ficou muito satisfeito com a divisão, principalmente por que Zeus exigia frequentemente seu reconhecimento como O Maior, e Possiedon se vingava nos homens, que eram aqueles que ofereciam oferendas, sacrifícios e orações, dando o verdadeiro poder aos deuses. Posseidon só era querido pelos costeiros, pescadores e navegantes, já que onde não havia mar não fazia sentido adorar o próprio deus do mar. Além de se vingar através de tempestades e maremotos, Neptuno “roubava” as mulheres dos homens, tornando-se seu amante. Tinha poderes que o transformavam em diversas coisas, era mágico, disfarçado, e nunca conseguia ser pego, era escorregadio como um peixe, e tinha sempre uma nebulosa aura magnética que atraía e também o disfarçava. Este deus, que inspirava alguns e enlouquecia outros, estava sempre se envolvendo em casos amorosos e diz-se que como foi ele que recebeu os órgãos castrados do pai, foi o outro progenitor de Afrodite, que surgiu de suas ondas, e por isso o deus representava também o amor, mas numa forma mais elevada (Neptuno é a oitava de Vénus).
Outro mito associado a Neptuno é o de Dionísio, ou Baco. Dionísio era filho de Zeus e de uma mortal, e foi perseguido durante toda a sua vida por Hera, esposa de Zeus, que jurou fazer sofrer o fruto da infidelidade do marido. Dionísio chegou a enlouquecer graças à perseguição constante de Hera, mas graças a sua loucura, criou o vinho, e pelo poder embriagador desta bebida foi transformado em deus, e continua a ser inconscientemente adorado até hoje, como arquétipo que eleva o homem a um humor divino, através do primeiro néctar dos deuses – o vinho. Os cultos de Dionísio eram cultos de fertilidade, associados sempre aos encantamentos da música e do vinho. A loucura criativa deste deus leva ao êxtase absoluto.
Os bacanais eram outras formas de comemoração ao deus Baco, onde havia uma experiência emocional colectiva, que através da fusão sexual com o todo, visava a transcendência do eu separado.
Nos mitos Cristãos, Neptuno tem um papel importante, sendo o regente da era de peixes, a era cristã, e representa arquetipicamente o próprio Cristo e a Virgem Maria, personificando-se como os mártires que se auto-sacrificam e sofrem para salvar toda a Humanidade.
Através dos mitos de Neptuno podemos apreender vários significados importantes.
A ligação de Neptuno ao caos e ao oceano nos remete para associações com o absoluto. Num oceano, cada gota é indiferenciada, funde-se com a outra sem manter fronteiras, as moléculas de hidrogénio e oxigénio num movimento constante, não há partes separadas, só o todo. Este absoluto é um conceito importante neptuniano, que ultrapassa a visão de Urano de um todo composto por partes singulares. Neptuno representa a perda da individualidade através da fusão com algo maior, com o absoluto. Várias religiões usam esta imagem como sendo o final do processo evolutivo, a dissolução do ego separado (Saturno) num todo maior, e este todo maior representando a unidade com o próprio Deus, e a existência sem limitações.
Além disso o oceano também pode ser associado ao inconsciente, donde surge toda a criatividade, mas corre-se o risco de se afogar.
No mito, Cronos/Saturno, como medo de ser desintegrado no Caos, devora Posseidon/Neptuno. Psiquicamente o Ego também teme ser desintegrado, e por isso Saturno, o princípio de estruturação egóica, se incumbe de manter Neptuno preso nas entranhas, ou no inconsciente.
A água oceânica também esta associada à agua uterina, a fonte da vida. Representa as profundezas interiores, as emoções, os sentimentos, a criatividade e a imaginação.
Neptuno é o processo de mitificação, representando Deus, Cristo e os Grandes mitos, como por exemplo, Marilyn Monroe (Neptuno na casa I), Lady Diana, Madre Teresa, e outros, figuras que sacrificaram a própria identidade ao representar o mito de imagem ideal.
Outro conceito que se pode atribuir a Neptuno à partir dos seus mitos é o de salvador e vítima.
Neptuno foi vítima de Cronos e seu salvador foi Zeus. Dionísio foi vítima de Hera, mas foi salvo pelos deuses ao criar o vinho. Cristo foi vítima e salvador simultaneamente, representando o expoente máximo do arquétipo neptuniano.
Neptuno representa de facto tendências de ser Salvador e atrair vítimas ou ser vítima e atrair salvadores. Representa o espírito de sacrifício, seja sacrifício por uma pessoa ou por uma causa maior.
Onde esta Neptuno num mapa, mostra onde se tende a procurar pelo absoluto, onde se tende a iludir e consequentemente se des-iludir. Mostra a via da transcendência, por onde eu chego ao caminho espiritual.
O signo onde esta Neptuno influencia toda uma geração, já que seu ciclo total é de 168 anos, ficando pouco mais que dozes anos em cada signo. Este signo, revelará quais são os mitos daquela geração, que mitos são captados pelo inconsciente colectivo.
Astrologia
Além daquilo que já mencionamos, podemos dizer que a principal função de Neptuno é dissolver, destruir as estruturas ultrapassadas, antiquadas, restritivas (Saturno). Neptuno transcende as fronteiras do Eu separado e nos revela uma realidade maior, mais universal, e que nos abre às perspectivas espirituais. Através da desintegração, integra realidades maiores, mais subtis, ampliando não só a consciência mental mais a emocional e a espiritual. Neptuno revela que a ilusão não vem das realidades subtis, mas pelo contrário, vêm da dimensão material.
Psicologicamente, Neptuno pode ser associado ao que Freud chamou de Tanato ou instinto de morte. Freud disse que além do instinto de vida, existe também um instinto de morte, caracterizado por um impulso de desintegração do ego e desejo de dissolução no absoluto. Freud diz que este impulso se deve à uma espécie nostalgia ao período intra uterino, onde o bebe estava protegido e integrado no corpo da mãe, e esta sensação simbiótica de unidade e absoluta indivisão é o que caracteriza este desejo de fim da consciência individual, separada.
Já na astrologia, Neptuno por se tratar de solidariedade, compaixão e amor universal, é considerado a oitava de Vénus. Enquanto Vénus é o amor a dois que espera retorno, Neptuno é o amor incondicional, que nada espera em troca, não tem expectativa, não exige nada do outro. Por um lado, é o amor genuíno e abundante, mas por outro pode ser o amor platónico, amor impossível e baseado na ilusão.
Uma das principais características de Neptuno é a empatia, isto é, a identificação amorosa com o outro. Os indivíduos fortemente identificados com este planeta podem dedicar a vida a uma causa a que amem, sacrificar-se por algo ou alguém, deixando de lado os desejos individuais para se doar para algo muito maior que si mesmo. Neptuno representa as renúncias, o amor que não espera recompensa.
Neptuno representa a vibração mais imaterial, dissolve inclusive a matéria, e por isso estar tão associado à espiritualidade e à transcendência. Representa o máximo do princípio da universalidade.
Neptuno também esta ligado ao conceito de utopia. Utopia vem de topos, e significa o que não tem lugar. Neptuno pode representar aquele ideal que não tem lugar na realidade para se manifestar.
Os ideais espirituais são neptunianos. A procura pelo absoluto, pela realização máxima. Este absoluto de facto existe no silencioso interior de cada pessoa. Muitas o alcançam, por exemplo, através da meditação. Mas a maioria procura esta realização máxima fora de si, em alguém, em algo ou então a projectam para o futuro “um dia, quando eu fizer isso, quando eu for assim, vou alcançar a realização máxima” e então esta ilusão nunca se concretiza, esta utopia nunca acontece, a plenitude nunca vem, e a desilusão é inevitável . Por isso, um dos significados conhecidos de Neptuno é ilusão, desilusão, enganos, mentiras, fuga da realidade. Neptuno revela que o absoluto já é, já está dentro de nós, e só pode ser encontrado no presente. A desilusão nos liberta, permitindo que possamos procurar esta plenitude no único lugar onde ela sempre esteve: DENTRO.
Neptuno rege Peixes e a casa XII.